Eles eram 3. As duas mocinhas de pé e ele sentado em um degrau de granito em frente à porta da sobreloja de uma ótica (sobreótica?). Uma increditável casca de banana ao lado do rapaz dava uma ar cômico à cena. Esperavam o ônibus com aquela paciência juvenil que só se manifesta na iminência inexorável do grande tédio. Não deviam ter 16 anos.
As duas usavam calça jeans de cintura alta, daquelas que tem dois botões acima do ziper e uma camiseta uniformizada da escola técnica guaracy silveira, uma delas tendo cortado a gola de forma irregular. A ruiva (natural) tinha o cabelo bem curto, repicado, e um piercing prateado onde a cindy crawford tem uma pinta, a morena tinha a pele bem escura e um cabelo meio afro até metade das costas, usava um óculos escuros de aro quadrado. Ele usava jeans rasgados, havaianas, óculos retrô e tinha um cabelo castanho neutro (no tom que o vitinho chama de castanho gay) meio comprido, uma coisa meio jean morrison. Espinhas, muitas espinhas. Nos três, se bem que a morena até que se salvava. Aquela desconfortável deselegância que costuma nos atingir na indecisão colegial atravessava o esforço underground e dava ao look aquela atmosfera de anos 80 mal resolvidos.
- Olha aquela árvore.
- O que?
- Não está se mexendo.
- Nada, parace uma estátua.
- E o céu não tem nenhuma núvem.
- Ainda bem que a gente está na sombra.
- Eu acho muito estranho céu sem núvem.
- Sabe o que me dá muita agonia?
- O que?
- Olhar assim para o céu sem núvens e perder a referência.
- Como assim?
- Ah, vocês nunca tiveram essa sensação? Olhar para cima e não ter nenhuma referência no céu? Ver só o céu? Parece que a gente está caindo.
- Sabe o que é legal também?
- Ah, não sei, eu tenho muita agonia, um dia vocês tentam e ai vão entender.
- O que?
- Olhar aqueles prédios bem altos, bem quando você está no pé deles, tipo assim na paulista. E ai você finge que a gravidade girou 90 graus e você pode ir andando nele até em cima como se fosse um trampolim.
- Como se você fosse cair num abismo e a cidade fosse a parede?
- É.
- Eu acho o centro mais legal que a paulista.
- Tem uns prédios maior legais lá, né?
- É que eles são do século XIX. Antes os prédios era mais bonitos.
- É, eu gosto daquele que é assim, meio redondo para trás.
- Meio assim, né?
- É, esse é o da prefeitura.
- Ai, tem um prédio lá que eu acho meio brega. É em que vai descendo meio assim.
- Ah, eu sei qual é.
- Esse não é o da prefeitura, é o da bolsa de valores. Eu também não gosto.
- Seria bonito se são paulo fosse inteira que nem o centro. Tirando o cheiro.
- Nossa, o cheiro é horrível, né?
- E uma mulher um dia no metrô?
- O que foi?
- Não, o filho dela falou que precisava ir no banheiro e ela só apontou assim para o lado e disse "tá aí!".
- Nossa, mas é muito assim mesmo.
- Tipo "tá aí", e o menino foi lá e fez mesmo. Nem ligou, não teve vergonha nenhuma.
- E quando ele crescer, imagina?
- Não vai usar o banheiro nem em casa, vai fazer tudo na sala mesmo.
- Isso me lembrou aquela cena do cronicamente inviável.
- Qual?
- Aquela que ele está fazendo xixi no jardim e ela abre a porta e fale "vai fazer isso na sua casa" e ele vai e entra na casa.
- Muito boa essa cena.
- Nossa, vocês não sabem o que eu fiz na aula do Geraldo.
- Informática?
- É, ele usou o google maps.
- Eu acho muito legal o google maps.
- Então, eu abri daquele jeito bem longe a cidade de são paulo, quando dá para ver as estradas chegando, sabe?
- Sei.
- Aí eu coloquei bem no meio do mapa e apertei duas vezes para aproximar. Adivinha aonde deu?
- Onde.
- Rua caropá.
- Ah, a rua da marina.
- É, acho que a casa da marina é o centro do universo.
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