quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Diálogo dos 3 por cento

Era o meu segundo semestre na sociais. Eu tinha conversado com esse cara algumas vezes, fizemos um seminário de Antropologia II juntos. Ele era bizarro, tinha trabalhado uns 30 anos na aeronáutica e ficou contanto uma história tenebrosa sobre um amigo dele que era professor e tinha sido chantageado pela aluna depois de ter levado ela para um motel em troca de uma nota maior.
Estava chegando no prédio da sociais de buenas, andando por um daqueles caminhos sobre lajotas de concreto através do jardim.
- Você pertence a uma minoria que representa 3% da população global.
- Como assim?
- Os ruivos.
- Tudo isso?
- Acabei de ler um artigo sobre isso.
- Será? Achei que fôssemos bem menos.
- Não é tanto assim, são umas 200 milhões de pessoas.
- Nossa, achei que não dava 10 milhões.
- É que você tem que pensar que tem países com muito mais ruivos. Até mesmo a maioria da população, quem sabe... Irlanda, Russia...
- É... Somos até bem mais do que os descendentes de Gengis Khan então.
- Como assim?
- Ouvi no rádio outro dia sobre uma pesquisa que dizia que um em cada 100 mil pessoas era descendente direto de Gengis Kahn.
- É bastante.
- Na mongólia parece que é algo como 1 para 10.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Conceito infeliz


- Bom dia, meu nome é zé privada, eu sou amarelo e uso gravata borboleta vermelha. Para a higiene de todos encha a minha cabeça com seus excrementos.
(foto tirada com meu celular de adesivo no banheiro do soho da vila madalena)

Segurança

Me surpreendi com o dispositivo de segurança desse fusca que vi hoje estacionado na USP. Eu sabia que existia, mas nunca imaginei que veria em ação...


;)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Guerra do Emboabas


Esse post é um elogio à montagem da exposição "Guerra dos Emboabas 300 anos depois", em cartaz na Casa Banderista, perto da Usp, no Butantã.
A exposição não se propõe a explicar o fenômeno, a criar uma narrativa que o torne perfeitamente inteligível, e isso eu achei interessante.
Vemos na entrada apenas uma definição bastante genérica desse evento (série de conflitos entre bandeirantes paulistas e corôa portuguêsa em torno da atividade mineradora em minas gerais) e, ao longo da exposição, temos acesso a uma série de documentos e narrativas da época, que nos dão uma visão multi-facetada do evento. A mediação dos curadores está na pesquisa, na seleção e na montagem da exposição mas a diversidade dos discursos a respeito da guerra dos emboabas é de certa forma respeitada.
Ao sair temos uma sensação de incompletude, de contradição, de inconsistência. Mas essa sensação me parece, por outro lado, a sensação que deveríamos ter ao tentar reconstituir a história através de documentos: a história, se é que podemos falar em "a história", é incompleta, contraditória e inconsistente.
Me lembrou bastante a discussão que o benjamin faz sobre a história em "sobre o conceito de história". Aliás, fiquei pensando: talvez a questão seja que a história nessa exposição foi apresentada como montagem, não como narrativa. Montagem como de cinema mesmo, como definiu o Eisenstein. Talvez seja esse o x da questão.
Sempre me incomodei com a história como narrativa. Lembro inclusive de ter ficado muito bravo com um amigo meu que no terceiro colegial disse que o estudo acadêmico de história era algo nessessariamente superficial: "a gente já conhece a história, tudo que eles fazem é ficar pensando em jeitos de contá-la". Opinião babaca essa. Tenho a impressão inclusive de que os desafios da história são muito mais complexos do que os da ciências sociais.
Enfim, acho que essa exposição reascendeu meu interesse e minha admiração pela história e pelos historiadores.

A imagem acima é um dos mapas expostos. Mostra os caminhos de são paulo a minhas gerais no século XVII. Esses traços marrons, que parecem ora galhos e ora rios, são estradas (de terra). Estradas que correm ao contrário do rio (do rio grande para o afluente) e da mesma forma que a seiva bruta (da raiz para os galhos). Na volta (dos galhos para a raiz), a seiva elaborada seria o ouro. Bandeirantes, seiva bruta, ouro, seiva elaborada. Muito bonito esse mapa.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Feira do Livro

oba oba
chegamos na feira do livro
é hora de gastar
o dinheiro que eu não tenho
com livros que eu não preciso

(por aline molina)

Orientação dos Gatos II

Segunda parte/parágrafo do projeto "orientação dos gatos".
Para ver a parte anterior, a capa e a explicação do projeto clique aqui.

II.

É estranho, embora tenha renunciado a entrar completamente no mundo de Osíris, meu amor por Alana não aceita essa simplicidade de coisa concluída, de casal para sempre, de vida sem segredos. Atrás desses olhos azuis há mais, no fundo das palavras e dos gemidos e dos silêncios anima-se outro reino, respira outra Alana. Nunca a disse isso, quero-a emais para não trincar essa superfície de felicidade pela qual já deslizaram tantos dias, tantos anos. A meu modo, teimo em compreender, em descobrir; observo-a sem espiá-la; sigo-a sem desconfiar; amo uma maravilhosa estátua mutilada, um texto inacabado, um fragmento de céu inscrito na janela da vida.


Essa série eu publico originalmente no ninfetasemfúria, blog do qual participo às quintas-feiras. Esse post tem 1 semana de atraso em relação ao ninfetas, o que significa que clicando aqui você já vê a treceira parte do projeto.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Idéias Afins?

Propaganda do Mackenzie (Faculdade), 2009


"O Mundo de Ligia", desenho que fiz em 2008


Estranho, curioso ou assustador?

Falou e disse, Lorô

- Vocês viram que legal que inventaram um vibrador que liga no ipod e vibra no ritmo das suas músicas? Eu queria ser uma mulher só para experimentar esse vibrador...
- Você não precisa ser uma mulher para experimentar esse vibrador.

Por uma questão de valores não vou revelar a identidade do autor da primeira fala.

Ironias da Tecnologia

- Eu não consigo achar de novo onde eu estava.
Meu pai se perdeu nas ruas de roma, pelo google earth 3d.

Antropologia & Cinema

Meu professor de "Antropologia e Cinema" é precisamente o que eu costumo chamar de coxinha.
Como professor ele é medíocre: consegue tronar tediosos os temas mais interessantes, fazer 1 hora se arrastar como 4, é bastante insensível às respostas da classe e não costuma entender bem os comentários dos alunos, parece meio tapado, não sei.
Até que ele mostrou dois dos filmes nos quais ele trabalhou. Um como diretor/ realizador e outro como câmera e editor. Acho que nunca nenhum filme me atingiu quanto esses dois, especialmente o segundo.
O primeiro chama "ritual da vida", e trata dos ritos funerários dos bororo. É uma loucura. Não sei o quanto se trata da excepcionalidade da situação ou do diretor, mas foi um experiência simplesmente fantástica e, de uma forma ou de outra, é preciso de uma puta sensibilidade para fazer um filme desses. Não lembra em nada os documentários que costtumamos ver. Em termos visuais não tinha nada daquela coisa meio étnica, tipo sei lá, "o coração da floresta", os indios pareciam mais uma gente pobre que mora no mato. Mas no meio daquele clima aparentemente pobre (pobre mesmo) começa um ritual exuberante, não sei se exuberante visualmente (de novo), acho que não, mas em significados. E não tinha nenhuma espécie de explicação, apenas legendas. Achei impressionante como as ações rituais pareciam pouco ritualizadas, pouco teatrais. Os ritos eram feitos com a naturalidade de quem descasca uma laranja. Os gestos se faziam em si mesmos, em seus significados, não em sua teatralidade. Gestos furtivos mesmo, como os gestos de alguém que liga um ventilador. Não sei, nossos funerais são tão formais e tão vazios. Os significados reais parecem em preocupações alheias ao ritual. O padre está lá, ele fala, mas ele apenas cumpre, ninguém parece realmente transformado pelo que o padre fala. Voltando ao filme, a cena mais marcante foi o momento em que as mulheres ralaram os próprios pulsos com a unha até sangrar, e cobrir o corpo do morto com sangue. Estavamos todos perplexos. Mas não perplexos em transe, como quem vê o final de o senhor dois anéis. Não era uma cena teatral, distante, totalmente inverossímel. O fundo da tenda era de lona, e um menino ao lado usava uma camisa suja da turma da mônica. Era uma mulher agindo, não atuando. Isso acho que foi marcante. É claro que havia uma teatralidade, mas é que a precaridade dessa teatralidade acho que deixava transparecer o significado do gesto. Em suma, foi simplesmente fantástico.
O outro filme, que vi ontem, chama "Em (si) mesmas" e é sobre o trabalho de um fotógrafa junto a uma instituição psiquiátrica feminina em Franco da Rocha. Esse trabalho consiste em conversar com as internas e tirar fotos delas, não necessariamente nessa ordem. As fotos depois são entregues pessoalmente e elas conversam sobre as fotos e montam álbuns. Elas trocam cartas entre as visitas também. O filme, além de mostrar entrevistas com a fotógrafa acompanha uma passeio que ela faz com duas internas pela cidade de franco da rocha, na qual elas tiram fotos. É difícil de novo explicar por que o filme me atingiu tanto (e continua me atingindo). A cena mais marcante é quando uma das internas fica imóvel sorrindo diante da câmera filmadora, sem entender que não se tratava de uma câmera fotográfica e descobre, alguns segundos depois, seu reflexo na lente da câmera. Acho que o que pega é a distância e a proximidade, como sempre. A ternura inexplicável das internas e o estranhamento também inexplicável delas em relação ao mundo. É agoniante essa coisa da loucura. É incrível a nossa dificuldade, nossa vergonhosa incapacidade, de lidar com alguns tipos de diferença. No meio do filme estava tão abalado que tive medo de olhar para meus colegas, medo da cara que eu teria se um deles olhasse para mim. Depois acabei olhando: estavam todos olhando atentamente para a tela, alguns com os olhos úmidos, como os meues. Não sei se vou conseguir dizer muita coisa também, por que as imagens do filme (que não tem 20 minutos) parecem ser reduzidas demais pelo que eu falo.
Acho que isso há em comum entre esses filmes, o estatuto próprio que eles conseguem dar à imagem, a forma como eles são intraduzíveis para o texto. Isso é talvez a realização máxima do cinema. Irônica até, pensando assim, a obsessão que temos de transformar livros em filmes.
Esses dois filmes tem algo de tosco também, de imperfeito. Tem uma estética própria, que emociona por parecer muito real, ou, se essa palavra é perigosa, muito próximos ou muito possíveis (caseiro) e não por escapar totalmente da realidade (aquela coisa das cores na TV parecerem mais vibrantes).
Não sei, acho que é isso. Meu professor me surpreendeu positivamente. É bom perceber que essas discussões, por mais tediosas que sejam, produzam de fato filmes excepcionais. Filmes tão excepcionais que me marcaram mais do que qualquer filme holiwodiano, revolucionário soviético, neo-realista italiano ou alternativo.