Meu professor de "Antropologia e Cinema" é precisamente o que eu costumo chamar de
coxinha.
Como professor ele é medíocre: consegue tronar tediosos os temas mais interessantes, fazer 1 hora se arrastar como 4, é bastante insensível às respostas da classe e não costuma entender bem os comentários dos alunos, parece meio tapado, não sei.
Até que ele mostrou dois dos filmes nos quais ele trabalhou. Um como diretor/ realizador e outro como câmera e editor. Acho que nunca nenhum filme me atingiu quanto esses dois, especialmente o segundo.
O primeiro chama "ritual da vida", e trata dos ritos funerários dos bororo. É uma loucura. Não sei o quanto se trata da excepcionalidade da situação ou do diretor, mas foi um experiência simplesmente fantástica e, de uma forma ou de outra, é preciso de uma puta sensibilidade para fazer um filme desses. Não lembra em nada os documentários que costtumamos ver. Em termos visuais não tinha nada daquela coisa meio étnica, tipo sei lá, "o coração da floresta", os indios pareciam mais uma gente pobre que mora no mato. Mas no meio daquele clima aparentemente pobre (pobre mesmo) começa um ritual exuberante, não sei se exuberante visualmente (de novo), acho que não, mas em significados. E não tinha nenhuma espécie de explicação, apenas legendas. Achei impressionante como as ações rituais pareciam pouco ritualizadas, pouco teatrais. Os ritos eram feitos com a naturalidade de quem descasca uma laranja. Os gestos se faziam em si mesmos, em seus significados, não em sua teatralidade. Gestos furtivos mesmo, como os gestos de alguém que liga um ventilador. Não sei, nossos funerais são tão formais e tão vazios. Os significados reais parecem em preocupações alheias ao ritual. O padre está lá, ele fala, mas ele apenas cumpre, ninguém parece realmente transformado pelo que o padre fala. Voltando ao filme, a cena mais marcante foi o momento em que as mulheres ralaram os próprios pulsos com a unha até sangrar, e cobrir o corpo do morto com sangue. Estavamos todos perplexos. Mas não perplexos em transe, como quem vê o final de o senhor dois anéis. Não era uma cena teatral, distante, totalmente inverossímel. O fundo da tenda era de lona, e um menino ao lado usava uma camisa suja da turma da mônica. Era uma mulher agindo, não atuando. Isso acho que foi marcante. É claro que havia uma teatralidade, mas é que a precaridade dessa teatralidade acho que deixava transparecer o significado do gesto. Em suma, foi simplesmente fantástico.
O outro filme, que vi ontem, chama "Em (si) mesmas" e é sobre o trabalho de um fotógrafa junto a uma instituição psiquiátrica feminina em Franco da Rocha. Esse trabalho consiste em conversar com as internas e tirar fotos delas, não necessariamente nessa ordem. As fotos depois são entregues pessoalmente e elas conversam sobre as fotos e montam álbuns. Elas trocam cartas entre as visitas também. O filme, além de mostrar entrevistas com a fotógrafa acompanha uma passeio que ela faz com duas internas pela cidade de franco da rocha, na qual elas tiram fotos. É difícil de novo explicar por que o filme me atingiu tanto (e continua me atingindo). A cena mais marcante é quando uma das internas fica imóvel sorrindo diante da câmera filmadora, sem entender que não se tratava de uma câmera fotográfica e descobre, alguns segundos depois, seu reflexo na lente da câmera. Acho que o que pega é a distância e a proximidade, como sempre. A ternura inexplicável das internas e o estranhamento também inexplicável delas em relação ao mundo. É agoniante essa coisa da loucura. É incrível a nossa dificuldade, nossa vergonhosa incapacidade, de lidar com alguns tipos de diferença. No meio do filme estava tão abalado que tive medo de olhar para meus colegas, medo da cara que eu teria se um deles olhasse para mim. Depois acabei olhando: estavam todos olhando atentamente para a tela, alguns com os olhos úmidos, como os meues. Não sei se vou conseguir dizer muita coisa também, por que as imagens do filme (que não tem 20 minutos) parecem ser reduzidas demais pelo que eu falo.
Acho que isso há em comum entre esses filmes, o estatuto próprio que eles conseguem dar à imagem, a forma como eles são intraduzíveis para o texto. Isso é talvez a realização máxima do cinema. Irônica até, pensando assim, a obsessão que temos de transformar livros em filmes.
Esses dois filmes tem algo de tosco também, de imperfeito. Tem uma estética própria, que emociona por parecer muito real, ou, se essa palavra é perigosa, muito próximos ou muito possíveis (caseiro) e não por escapar totalmente da realidade (aquela coisa das cores na TV parecerem mais vibrantes).
Não sei, acho que é isso. Meu professor me surpreendeu positivamente. É bom perceber que essas discussões, por mais tediosas que sejam, produzam de fato filmes excepcionais. Filmes tão excepcionais que me marcaram mais do que qualquer filme holiwodiano, revolucionário soviético, neo-realista italiano ou alternativo.